Conhecimento

Desperte sua Escrita

Um guia prático de 20 dicas valiosas para roteiristas e escritoras, do zero à revisão final.

Os Três Pilares da Criação

1. A Ideia

Todo processo começa no caos. É a hora de pesquisar referências, construir personas, assistir filmes e deixar a criatividade solta sem filtros.

2. A Escrita

Sentar e apenas escrever. Abraçando a imperfeição da primeira versão, focando no ritmo, nos diálogos e na estrutura da narrativa em si.

3. A Reescrita

Cortar excessos, revisar buracos na trama e polir o texto. É aqui que a verdadeira obra de arte ganha sua forma final e definitiva.

20 Dicas de Ouro

A IDEIA

Talvez você tenha uma ideia, ou várias ideias. Mas uma ideia na cabeça é apenas um pensamento, não é real; o primeiro passo é focar para começar a escrever uma delas, talvez a que você mais gosta, seja pelo tema da história ou pelos personagens. Conectar-se em algum nível faz você ter vontade de terminá-la, de ver sua conclusão e publicação (só saiba também o momento de dizer adeus, dica futura).

QUAL A PREMISSA?

A ideia existe, mas para onde a história vai ser direcionada? Quem é seu personagem? Qual seu desejo/motivo dramático? Quais os conflitos que vão impedir o protagonista? O melhor exercício é escrever isso em apenas uma linha ou frase (também chamado de logline pelos roteiristas e cineastas) tudo o que seu personagem quer, seguindo uma regrinha básica de Contexto da História + Personagem + Adjetivo Característico + Desejo Dramático + Conflito.

Exemplo de Interstellar (2014): 'Em um futuro onde a Terra está morrendo devido a colheitas devastadas e tempestades de poeira, um grupo de astronautas viaja através de um buraco de minhoca recém-descoberto na tentativa de encontrar um novo planeta habitável e garantir a sobrevivência da humanidade.'

QUAL HISTÓRIA VOCÊ QUER CONTAR?

Depois da premissa, é importante focar no desejo principal que seu protagonista quer ou precisa; isso vai guiar as expectativas do leitor para o gênero da sua história e quais convenções ele vai esperar ou reconhecer. Dessa forma, a narrativa ganha profundidade ao equilibrar o que o personagem deseja (sua meta externa, como a sobrevivência em uma história de ação) com o que ele realmente precisa (sua transformação interna, como o amadurecimento). Misturar esses dois eixos faz com que a sua história se conecte com o leitor em um nível mais profundo, emocional e, claro, comercialmente viável.

CONSUMA ARTE E MÍDIA

Nenhuma história surge do nada e é consideravelmente difícil ter uma ideia 100% original no mundo de hoje, a arte é autofágica e tudo se inspira. Ler outros livros, ver obras de arte, assistir filmes, jogar jogos, tudo isso te influencia a montar o quebra-cabeça que é a sua construção de mundo. E procurar essas referências é assistir/ler/jogar não pelo prazer em si, mas como uma forma de trabalho, tentando descobrir as convenções narrativas, cenas principais e como o autor/cineasta te conduz pela história.

APENAS COMECE (E CONTINUE)

Começar é normalmente a parte mais difícil: olhar para uma página em branco e tentar o seu máximo para que fique perfeito na primeira escrita. Mas isso é impossível; abra seu documento ou caderno e escreva um parágrafo. Não precisa estar perfeito ou necessariamente bom; assim que você começar, as coisas ficam mais fáceis. O momento e o fluxo de escrita é que vão te guiar, tornando o próximo parágrafo mais fácil, e depois o próximo, e por aí vai..

FAÇA A PERSONA DO LEITOR

No marketing, a persona é um personagem fictício criado para representar um cliente ideal. Trazendo para o âmbito literário, pensar em uma pessoa ao invés de um público-alvo pode ajudar a entender como interessar, instruir e trazer emoção para esse leitor fictício. Faça uma pesquisa sobre como essa pessoa funcionaria, quais seus hobbies, quais seus interesses, o que ela não gosta e, acima de tudo, faça a si mesmo a pergunta: “Por que esse leitor gostaria da minha narrativa?”

DEFINA SEU ESPAÇO DE ESCRITA

Para começar a escrever, você não precisa ter um santuário ou um templo; você começa onde consegue. Mas tente achar um local onde sua mente consiga fluir e se livrar de distrações (principalmente o celular); deixe-se confortável para ter uma melhor produtividade.

Dica do autor: sempre deixe sua bebida favorita por perto.

ESTRUTURA DA NARRATIVA

Toda narrativa precisa de uma estrutura que já é bem definida (claro, você também pode ser experimentalista, mas não entraremos nesse modelo aqui):

Gráfico de Estrutura em Três Atos - Vilto Reis
Sempre lembre que a cada transição de ato, algum conflito precisa aparecer para que a decisão do protagonista traga consequências para o próximo ato e para o objetivo final dele. Outro ponto importante é em qual Ponto de Vista você vai escrever a narrativa: primeira pessoa (narrador-personagem), terceira pessoa limitada (narrador observador) ou terceira pessoa onisciente (narrador onisciente), cada um tem suas vantagens e desvantagens. Escolha o melhor para a sua história e como o ponto de vista vai influenciar artisticamente na sua obra.

CONVENÇÕES E MAIS CONVENÇÕES

Se você, enquanto escritor, é perfeccionista, os leitores são ainda mais exigentes; afinal, eles consomem histórias há anos e têm expectativas sobre o que deve acontecer na narrativa. Convenções narrativas ou tropes (clichês literários) são padrões que os contadores de história ao longo do tempo descobriram que funcionam para criar uma boa trama dentro de um gênero. Por exemplo, no gênero de mistério, normalmente a história sempre começa com um assassinato, apresenta pistas falsas e traz a revelação final no clímax. Já uma história de romance quase sempre apresenta o amigo conselheiro, algum tipo de triângulo amoroso e um momento fofo em que os amantes se conhecem. Um bom uso das convenções faz com que o leitor saiba o que esperar e o que pode surpreender, mas o uso excessivo pode cair no clichê e desmoronar a sua narrativa.

MOSTRE, NÃO CONTE

Uma das regras de ouro da escrita criativa é o famoso “show, don’t tell”, em vez de simplesmente dizer ao leitor que um personagem está furioso, mostre a reação física dele: o punho cerrado, a mandíbula tensa ou o tom de voz que gela a sala. Deixar que o leitor deduza os sentimentos e as características através das ações e do cenário cria uma experiência muito mais imersiva e visual. Confie na inteligência do leitor e não coloque tudo mastigado na sua frente.

DIÁLOGOS COM PROPÓSITO

Conversas entre pessoas são cheias de formalidades, silêncios e assuntos irrelevantes, mas na ficção o diálogo precisa ter uma função clara. Cada linha dita por um personagem deve fazer a trama avançar, revelar algo sobre a personalidade dele ou criar tensão e conflito. Evite o 'bom dia, tudo bem? Tudo e você?' que não leva a lugar nenhum. Use também o subtexto: muitas vezes, o que o personagem deixa de falar expressa muito mais do que as palavras que saem da boca dele.

PERSONAGENS TRIDIMENSIONAIS

Seja na realidade ou na ficção, o mundo não é preto no branco; na verdade, ele é feito de várias camadas de cinza. Assim também são as figuras que você coloca na sua narrativa: os personagens precisam parecer reais e críveis, com suas qualidades, defeitos, contradições e segredos. Dê a eles uma fraqueza psicológica ou um fantasma do passado que influencie diretamente suas decisões no presente.

Dica do autor: crie uma ficha detalhada para os protagonistas e antagonistas, incluindo até mesmo manias bobas ou o maior medo deles.

RITMO DA NARRATIVA

O ritmo (ou pacing) é o controle de velocidade com que a sua história se desenrola, podendo fazer com que um livro pequeno pareça incrivelmente lento e monótono ou com que um livro grande passe em um piscar de olhos. Normalmente, cenas de ação intensa, perseguições ou confrontos pedem frases mais curtas, verbos dinâmicos e poucos adjetivos para dar a sensação de urgência ao leitor. Já os momentos de reflexão, luto ou descrição de cenários complexos exigem um ritmo mais lento, com frases longas e detalhadas. O segredo de uma boa narrativa está em alternar esses momentos para que o leitor não fique exausto nem entediado.

Dica de leitor: descrições concisas são melhores que parágrafos detalhando toda a mobília de uma sala passageira.

CONSISTÊNCIA

Seja livro, conto ou um roteiro, nenhum deles é escrito em um dia; não existe como “enxugar” tudo para ser escrito o quanto antes. O principal ponto para começar uma escrita e, consequentemente, terminá-la, é fazer pequenos progressos diários. Se você começar a estabelecer pequenos desafios diários de escrever 1000 palavras ou duas páginas (escrevendo por talvez uma hora ou duas), depois de 100 dias você vai ter 100.000 palavras escritas ou 200 páginas. O que já é algo bem grande! Lembre-se de que sua rotina é apenas sua e pode ser flexível para o seu gosto pessoal!

ABRACE A IMPERFEIÇÃO

Antes, falamos que começar a escrever é algo complicado, mas, depois que você termina, você (provavelmente) vai achar o que escreveu uma merda. E isso é totalmente normal: todo artista é perfeccionista. Mas uma coisa que é sempre importante lembrar é que um livro bom é um livro que em algum momento foi ruim, mas o autor não desistiu dele. Sua primeira versão provavelmente vai ser ruim, a segunda versão vai ser mais ou menos, a terceira versão vai ser boa. Mas é importante colocar na cabeça que “Antes imperfeito do que não feito”; o seu projeto foi concluído e isso é o que importa por enquanto.

SAIBA DIZER “ADEUS E ATÉ BREVE”

Escrever algo é um processo único e caótico que difere para cada escritor, mas, é importante saber quando é preciso de um tempo. Bloqueios criativos são inevitáveis, uma hora ou outra vai acontecer, seja no meio do livro ou até mesmo para escrever novas versões, mas é importante se distanciar um pouco da obra e viver a vida. Em algum momento (normalmente nas horas mais aleatórias possíveis), novas ideias vão surgir e a solução para seu problema vai aparecer, mas você precisa estar em paz e não obcecado pelo resultado.

Dica do autor: deixe um bloco de notas do lado da cama e na sua bolsa.

REDE DE APOIO

Existe uma fabulação de que o escritor/artista é aquele que se isola em uma casa no meio do mato e apenas foca na escrita durante meses ou anos. Mas, quando você estuda a vida desses escritores famosos, percebe que nenhum fez tudo sozinho; todos contavam com pessoas (amigos, familiares, professores) que os apoiavam e os incentivavam a não desistir do projeto. Não tente fazer tudo sozinho: encontre um grupo, faça aulas online, contrate um editor ou até mesmo chame aquele amigo que gosta de achar pelo em ovo. Seja o que for, não tente caminhar sozinho.

FEEDBACK

Nenhum artista gosta de receber pitaco no seu trabalho, mas, (in)felizmente, eles são essenciais para que consigamos continuar e saber onde a obra trava ou decai. Ter amigos próximos que consigam ler e apontar esses momentos ajuda a ter novas ideias e descartar as antigas que não funcionaram. Óbvio que nem todas as dicas são úteis e algumas pessoas só vão querer reclamar, mas saiba levar em conta as críticas construtivas, sejam elas vindas de pessoas que sabem de escrita e de livros, ou até mesmo de pessoas que não têm muito contato com a área.

A ARTE DA REESCRITA

Se na primeira versão você apenas colocou as ideias no papel, a reescrita é o momento de revisar os feedbacks que foram recebidos. Revisar não é apenas corrigir erros de português; também é cortar cenas inteiras que não servem para nada, ajustar buracos na trama, fortalecer a voz dos personagens e polir o texto. Não tenha medo de excluir parágrafos que você achou geniais, mas que travam a leitura. Como diz o ditado literário: 'mate os seus queridinhos' pelo bem do resultado final.

O FINAL É O COMEÇO

Colocar o ponto final na sua história traz um alívio enorme, mas o desfecho deve funcionar tanto como o encerramento de um ciclo quanto como gás para o que vem a seguir. Na narrativa, entregue a recompensa que o leitor esperou o livro todo (ou não, quebre as expectativas e os sonhos), mas deixe ganchos ou transformações que abram portas para uma sequência ou que façam o universo continuar ecoando na mente de quem lê. Para além do papel, o fim do manuscrito é o início da jornada de publicação e a faísca para o seu próximo livro.

Dica do autor: comemore o encerramento, respire por alguns dias e já abra um novo documento para rascunhar sua próxima premissa.